quarta-feira, 24 de junho de 2009

As Provas no Ensino Superior

Olá, Parceiros.
Achei um texto que discute a avaliação no ensino superior.
Quis colocá-lo aqui para gerar um debate, mas isto só será possível se as pessoas comentarem, derem opiniões... Este tema é sempre muito quente nos congressos de Educação Médica e acredito que seja também em todos os outros sobre educação.
Então, não fiquem tímidos... Comentem esta postagem; participem. Vamos aprender juntos. O grande objetivo meu ao construir este blog foi criar um espaço de convivência e de estudos que não dependesse de hora, nem de lugar.
Mas isto depende de seu comentário...
Obrigada!

Processo educativo

Mestre em didática e especialista em avaliação, Vasco Moretto defende que as provas do ensino superior deveriam ser vistas como um meio para indicar a construção de conhecimento do aluno

Quando se fala em avaliação no ensino superior, geralmente as instituições são colocadas no centro do debate. Mas ter uma metodologia que avalie os alunos de maneira eficiente também é relevante, apesar de o tema ser pouco discutido. E para tratar do assunto, poucas pessoas são tão qualificadas e entusiasmadas quanto Vasco Pedro Moretto. Mestre em didática das ciências pela Universidade Laval, em Québec, Canadá, e especialista em avaliação institucional pela Universidade Católica de Brasília (UCB), Moretto foi diretor pedagógico da Associação de Ensino Unificado do Distrito Federal (Aeudf) e atualmente dirige a Vasco Moretto Consultorias Educacionais S/C Ltda.

Com experiência docente de 40 anos e diversas atividades dedicadas ao ensino e à capacitação de professores, Moretto é um dos responsáveis pelo Programa de Avaliação Seriada (PAS) da Universidade de Brasília (UnB), primeira experiência brasileira de seleção diferenciada para acesso ao ensino superior em instituições de ensino superior públicas.
Um dos conferencistas mais requisitados para ministrar palestras sobre temas do cotidiano em sala de aula, Vasco fala com segurança e descontração. Para o educador, é preciso reformular a educação brasileira. Ele defende que "o critério para ser a melhor escola está na formação de cidadãos éticos e competentes". Após ministrar palestra para professores do colégio Bilac e da Faculdade de Tecnologia de São José dos Campos - Etep, Vasco concedeu a seguinte entrevista à revista Ensino Superior. Ensino Superior - Como fazer da avaliação parte do processo educativo, e não apenas a repetição do que foi discutido em sala de aula?Na verdade, a avaliação não é parte do processo educativo. Ela é o processo educativo. Não teria sentido, por exemplo, um professor elaborar uma ótima prova se ele ministra uma aula extremamente repetitiva. Assim como o contrário também não funcionaria. Então, o que deve haver é uma coerência nesse processo ensino-aprendizagem. Você ensina com o objetivo de que o aluno aprenda e sabe que ele aprendeu por meio de uma avaliação da aprendizagem. Essa coerência do que o professor ensina e da forma com que ele avalia a aprendizagem é o primeiro fator para encaminhar um bom processo educativo.

Ensino Superior - De que maneira a avaliação pode estimular as qualidades particulares de cada aluno? Eu faço uma distinção entre as palavras indivíduo e sujeito. O primeiro é a unidade da espécie humana. O sujeito é o indivíduo com sua história particular. Por isso, não deveríamos falar do tratamento individual, mas do tratamento "sujeital". Como cada aluno tem características próprias, a avaliação deveria ser também de acordo com as características de cada aluno. Mas não há como elaborar 30 provas diferentes para 30 alunos. O professor preparado vai buscar os elementos em comum do contexto social ao mesmo tempo em que consegue valorizar as tendências de cada aluno. Ele trabalha as individualidades sem esquecer do grupo como um todo. Infelizmente, no ensino superior há uma tendência em pensar que o aluno deve se virar sozinho. Mas eles ainda estão em formação. O professor do terceiro grau também precisa trabalhar na construção de conhecimento, entendendo conhecimento como representação social e não como uma descrição de elementos sociais.

Ensino Superior - Há diferenças na avaliação do ensino superior em relação às outras etapas do ensino? Afirmar que não devem existir diferenças é um erro. São trajetórias do processo de construção de conhecimento diferentes. Quem está em um curso do ensino superior já passou por etapas concluídas nos ensinos fundamental e médio. O aluno do terceiro grau precisa ter representações de situações mais complexas em relação a outro que está apenas fundamentando as bases de construção de conhecimento. Da mesma maneira, deve haver uma contextualização mais forte das situações a que ele vai responder. O que há de comum em todas as etapas é fazer com que os alunos sejam pensadores e não meros repetidores de informação.

Ensino Superior - As instituições de ensino superior, em geral, têm procurado implementar novas formas de avaliação? No meu entender, estão indo em busca disso por meio de um processo muito lento. Percebo uma vontade institucional para introduzir mudanças, porém há uma resistência grande dos professores, porque eles não foram preparados para isso, e reconhecer uma limitação às vezes causa um constrangimento. Só que é responsabilidade do professor utilizar instrumentos diferenciados para verificar o grau de construção de conhecimento do seu aluno. Mas isso tudo é uma mudança de metodologia, e antes é preciso haver uma mudança epistemológica, o que não aconteceu nos últimos 40 anos. O conhecimento não é apenas uma reprodução de informações e sim o significado que o aluno deu às informações que passaram a ele, como ele vai aplicá-lo no cotidiano. Aprendizagem é uma reconstrução contínua dos conceitos do que foi passado e as provas dos cursos superiores têm falhado exatamente nesse ponto. Elas continuam com o mesmo grau de profundidade daquelas preparadas no ensino médio.

Ensino Superior - Os métodos tradicionais de avaliação geralmente dão mais ênfase na aprovação do que na aprendizagem. Como escapar da ideia de que a avaliação é o objetivo final de um curso? O professor precisa distinguir desde o início duas coisas: o processo contínuo de avaliação e os momentos de avaliação. Ele deve estabelecer quais os conceitos básicos e periféricos das aplicações do seu curso. Os periféricos devem ser cobrados durante o semestre, por meio de provas, estudos de grupo. São momentos de análise que fazem parte da avaliação continuada. E no final do curso se faz uma avaliação da síntese. Pode ser feito por uma prova de múltipla escolha ou subjetiva. O que importa é perceber se o aluno construiu conhecimento ou somente decorou um conjunto de informações.

Ensino Superior - Existe um modelo ideal de prova? Não. Qualquer instrumento pode ser ótimo ou péssimo. As provas subjetivas não são sempre melhores do que as de múltipla escolha, como muitos pensam. Isso vai depender muito da competência do professor, em saber dar parâmetros aos alunos. O fundamental é avaliar a construção do conhecimento. O professor deve contextualizar e procurar obter as respostas em função do contexto. Não é a forma da prova que é importante, mas como através desse instrumento o professor vai verificar se o aluno construiu uma representação social para ele.

Ensino Superior - Em que momento do curso uma prova deve ser preparada pelo professor? Depende do planejamento do curso. O professor deve dividir seu curso em grandes unidades e estabelecer seus objetivos. Ao final de cada unidade ele deve aplicar uma avaliação para verificar a evolução dos alunos. Eu sou partidário de uma prova de síntese final do curso, que pode servir para alertar o aluno sobre qual assunto ele não domina, mas ela não pode ser a única. Nesse caso, se a atenção do aluno cai depois de quatro aulas, o professor não consegue verificar. Então, ele tem de dar instrumentos para acompanhar sistematicamente o aluno. Mas também não pode haver exageros. O excesso de provas pode provocar uma ilusão de progresso, já que o assunto estudado sempre vai estar fresco na memória. O ideal é escolher o que foi mais relevante depois de quatro ou cinco aulas e preparar uma avaliação.

Ensino Superior - Como observar a diversidade cultural e social em uma avaliação? Isso é um problema complexo. O professor deve entender que existe uma diversidade cultural e de personalidade dos seus alunos, mas que todos são o que [Immanuel] Kant chamou de "sujeito transcendental". Ou seja, um grupo de alunos pertence a uma sociedade que contém um conjunto de valores. O professor compreende que cada sujeito merece um tratamento individualizado ao longo do curso e do processo avaliativo, mas ao mesmo tempo cabe a ele perceber quais os valores comuns ao grupo e trabalhá-los. Os currículos e programas das universidades também precisam considerar essa questão, ter certos elementos que são comuns a esse grupo social.

Ensino Superior - Uma boa avaliação deve levar em conta o fator emocional de um aluno?Acho muito importante. Tanto que um dos pilares do modelo que desenvolvo sobre competência é o emocional. Quando algumas pessoas são colocadas em situações de cobrança, elas têm um desequilíbrio emocional, e isso também desequilibra o cognitivo. Cansei de escutar alunos que disseram ter estudado, mas que se esqueceram de tudo na hora da prova. Um professor competente estimula e tranquiliza o aluno, o leva a entender que se trata de um momento privilegiado de aprendizagem e não um acerto de contas. Por isso, acredito que uma solução é autorizar a consulta. Um profissional sempre consulta os meios de informação quando tem dúvida. Por que um aluno do ensino superior não poderia? A questão é que, dessa forma, o professor teria de elaborar uma prova inteligente, não algo para mera repetição. É uma mudança do conceito sobre a avaliação. Ela não é cobrança, mas um processo de colher indicadores da possibilidade ou não da construção de conhecimento do aluno.

Ensino Superior - A avaliação dos alunos pode servir para o professor se avaliar também? Claro. O processo de avaliação é um excelente feedback para o planejamento do professor. Há uma lógica: se o professor ensina para alguém que precisa aprender e se esse alguém não aprendeu, o objetivo não foi atingido. Então, no momento em que o professor percebeu que falhou, ele deve parar para analisar sua metodologia e procurar fazer mudanças. Por isso, a prova é um componente muito importante para essa verificação. Ela permite ao professor redirecionar continuamente o seu processo de ensino.

Ensino Superior - Como garantir que a visão do professor sobre determinado assunto não interfira na elaboração e na correção de uma prova? Não é possível elaborar instrumentos de avaliação em desacordo com sua ideologia, mas o texto pode ter um certo grau de isenção. Na ética de um bom educador não há espaço para o proselitismo. Ele não pode querer fazer dos alunos marxistas ou positivistas porque essa é sua visão sobre o mundo. Então, para amenizar, o professor deve ser muito claro e preciso nas suas perguntas. Em vez de questões abertas que possibilitem muitas interpretações, como "O que você pensa sobre" ou "Como nós poderíamos", é melhor pedir uma análise crítica de uma situação conforme determinada teoria. A partir daí ele tem de corrigir os textos de acordo com a lógica dos discursos e não com a sua expectativa sobre o que o aluno deve responder.

Ensino Superior - Uma boa prova deve questionar apenas o que foi ensinado em sala de aula ou pode exigir novas formulações do aluno? Esse é o grande erro das avaliações na educação brasileira. Uma prova não pode reproduzir apenas o que foi passado em sala de aula. Um curso deve capacitar o sujeito, através dos elementos ensinados durante as aulas, a abordar uma situação complexa, nova, e resolvê-la adequadamente. Na formação brasileira, se o professor der na prova uma questão que não está nos cadernos ou nos livros, vai existir uma pressão para que ela seja anulada. Essa é a diferença do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa) de outros países, onde os alunos são estimulados e instrumentados a responder questões que não conheceram antes.

REPORTAGEM DE Filipe Jahn, Revista Ensino Superior, Editora Segmento, n. 126, março de 2009

3 comentários:

. disse...

Minha parceira de todas as horas;

Ha anos ouço nossos colegas afirmarem que "avaliar é a parte mais difícil de ser professor". Mas, cada vez mais acho que esta é uma "frase feita", como um script de novela ... repete-se a frese sem nenhuma reflexão e nenhuma tentativa de fazer diferente ... VOCÊ é uma das raríssimas exceções que conheço! E que acredito!!!
Tenho procurado encontrar novas estratégias que façam da avaliação nao apenas um check list conteudista. Neste último período foquei muito especialmente a questão da responsabilidade e compromisso com a formação (não só profissional, mas tambem ética e socialmente responsável).
Mas tudo isso continua sendo um desafio ...
Como abrir mão do grande instrumento de exercício de poder do professor???
A avaliação é um momento ímpar para consolidar no aluno a arte de ser gente que cuida de gente ...
de respeito as capacidades individuais de cada um. E é também um momento de tentar fugir do jargão "como é dificil avaliar" e criar novas estratégias de facilitar o aprendizado, usando a avaliação como metodologia.
A gente podia criar um debate sobre este tema no inicio do próximo período ... que tal? O NAPA pode propor este debate! Vc topa?
Beijos com admiração
Sandra

Mônica Firmida disse...

Sandrinha,
Muito obrigada por seu comentário.
Você é sempre muito generosa.
Quanto ao debate, acho ótimo!
Deveríamos envolver professores e alunos... pois acredito que, juntos, somos mais capazes de melhorar e crescer.
Beijos carinhosos,
Moniquinha

Sandra Impagliazzo disse...

Amiga:
Vamos fazer o debate sim! Logo no inicio do semestre ... acho que nesta fase estão todos mais animados, não é?
Hoje estive conversando com um aluno da odonto sobre as angústias da avaliação! Há muito o que se discutir e debater! Nossa! Poroque excluímos sempre os alunos desta discussão, sempre pré-julgando que eles estão sempre "armando" ou querendo o caminho mais fácil ... acho isso um equívoco! Um grave equívoco!
Precisamos mesmo discutir isso, não é?
Beijos, amiga!