terça-feira, 7 de julho de 2009

Umas palavras do querido Rubem Alves

Aos jovens que desejam ser médicos: Eu também desejei muito ser um médico. Por que não fui, nem sei explicar direito. Mas na minha juventude os médicos eram diferentes dos médicos de hoje. Tinham de ser porque o mundo era diferente Os hospitais eram raros e raros também eram os laboratórios. Como um Sherlock Holmes, valendo-se de pistas mínimas, o médico tinha de descobrir o criminoso que deixava suas marcas no corpo do doente. Naqueles tempos a inteligência era muito importante. Por esse Brasil afora os médicos eram, frequentemente, heróis solitários que atendiam unha encravada, cachumba, desidratação, bronquite, pneumonia, parto, prisão de ventre, resfriado, crupe, disenteria, gonorréia, berne, conjuntivite, furúnculo, hemorróidas, lombriga, dor de garganta, coqueluche, tosse de cachorro, verruga, indigestão... E tinham de ser humildes porque as derrotas na luta contra a morte e o sofrimento eram mais frequentes.Vocês poderiam ler a estória do Jeca Tatuzinho, do Monteiro Lobato, distribuidos mais de oitenta milhões de exemplares. Com meus cinco anos eu sabia a estória do Jeca Tatuzinho de cor e a “lia”, compenetrado, para minha tia Noemia que estava doente... Com frequência o médico recebia como pagamento um frango, duas dúzias de ovos, um leitão – mais a eterna gratidão de quem tinha sido atendido e não podia pagar. Deus no céu, o “doutor” na terra, eram as valias dos pobres. O médico que me inspirou, que era o meu modelo... E por falar em modelo, que médico é o seu modelo? Há um médico que seja objeto da sua admiração, alguém que você deseja ser como ele? Antigamente os modelos eram de carne e osso. Hoje os modelos são mais abstratos, tipos ideais, como se tivessem perdido o rosto. Os modelos deixaram de ser pessoas e passaram a ser uma especialização profissional. Mas, como eu dizia, o meu modelo foi Albert Schweitzer, sobre quem já escrevi uma crônica que está no livro “O médico”. Hoje, quando se pensa num médico, pensa-se em alguém portador de um conhecimento especializado: a lista deles se encontra no catálogo da UNIMED ... Cada médico é uma unidade bio-psicológica móvel portadora de conhecimentos especializados e que executa atos sobre o corpo do paciente... Naqueles tempos era diferente. Os médicos tinham sim, conhecimentos e executavam atos sobre o corpo do paciente. Mas o que os caracterizava, mesmo – pelo menos no imaginário popular – era o fato de que eles eram seres movidos por compaixão. Eles eram muito amados, tomavam café com bolo de fubá depois das visitas nas casas. Compaixão, nas suas origens etimológicas, quer dizer “sofrer com um outro”. A compaixão é, talvez, a mais humana das nossas características. Toda pessoa que procura um médico está sofrendo. O “paciente” é aquele que sofre. Há sofrimentos dos mais variados tipos, das hérnias de disco e cálculos renais até a absoluta falta de apetite e a tristeza. O médico, que pode não estar sofrendo nada ( se ele estiver sofrendo será um médico mais compassivo... ), sofre um sofrimento que não é seu, é de um outro. E é só porque ele sofre com os sofrimentos dos outros que ele se impõe a disciplina de estudar, pesquisar e desenvolver habilidades: para que o outro sofra menos ou deixe de sofrer. A medicina nasceu da compaixão. Albert Schweitzer era uma pessoa muito especial. Desde menino sofria com o sofrimento de todas as coisas vivas, os mínimos animais e até mesmo com o capim cortado pela foice. Se disserem que ele deveria ter alguma perturbação mental eu direi que vocês provavelmente estão certos. Esse tipo de sensibilidade não se encontra no normal das pessoas. Mas é precisamente essa sensibilidade exacerbada que caracteriza os grandes homens e as grandes mulheres. São Francisco, Chopin, Cecília Meireles, Madre Tereza de Calcutá, Nietzsche, Faure, Gandhi foram todos pessoas de sensibilidade exacerbada. Por causa deles o mundo ficou melhor e mais bonito. O que faz um médico não são os seus conhecimentos de ciência médica. A ciência médica é algo que lhe é exterior e que ele leva consigo, como se fosse uma valise. Os conhecimentos científicos, qualquer pessoa pode ter. Mas a alma de um médico não se encontra no lugar do saber mas no lugar do amor. O médico é movido pela compaixão. Albert Schweitzer transformou esse sentimento num princípio ético que todo médico deveria ter afixado no seu consultório, para não se esquecer: Reverência pela vida. Toda vida, a mais ínfima, é sagrada. E foi movido por esse sentimento que aos trinta anos começou os seus estudos de medicina e foi exercê-la, pelo resto de sua vida, num lugar abandonado do coração da Africa chamado Lambarene. Mas eu me surpreendi com uma informação absurda, de que teria havido trotes sem compaixão a que os veteranos de uma escola de medicina de Campinas teriam imposto aos seus novos companheiros. Porque isso está em desacordo com tudo o que sempre pensei sobre a alma de um médico. Em alguns lugares está surgindo uma coisa bonita: o trote amigável. Cerca de 130 calouros foram trabalhar um dia inteiro na Fundação Síndrome de Down, na maior alegria: esse foi o seu trote. Mas o trote clássico, como já está sugerido pelo nome, é algo que revela um caráter cavalar. Mas, retiro o que disse. Porque nunca pude observar entre os cavalos qualquer comportamento que se assemelhe ao trote. O trote revela a alma dos que o fazem: eles sentem prazer em humilhar e fazer sofrer os seus novos colegas. Trata-se de uma deformação de personalidade idêntica àquela que se apresenta também nos torturadores e que tem o nome de sadismo. É revelador que o trote não seja feito por um indivíduo isolado, às claras. O indivíduo solitário não dá trote, por medo. Ele se sente fraco. É covarde. Para dar o trote ele se refugia no grupo – o que o faz sentir-se forte - e no anonimato – que lhe dá sentimentos de impunidade. E assim, protegido pelo grupo e pela impunidade, ele deixa aflorar seus impulsos bestiais. Corrijo-me de novo. Não conheço nenhum animal que sinta prazer no sofrimento dos outros... Fico então a pensar: esses tipos estão no processo de se tornarem médicos. Mas é óbvio que lhes falta o essencial do caráter médico. É urgente, então, que sejam tomadas providências no sentido de impedir que isso aconteça, e que tais jovens sejam encaminhados para outras profissões mais em harmonia com o seu carater como, por exemplo, as lutas marciais e o box. E que não me venham com a desculpa de que isso é coisa passageira, brincadeira de moços. Não é. O que o trote revela é um componente sádico da personalidade que não pode ser eliminado. O máximo que pode acontecer é que esse prazer em produzir sofrimento nos outros vá encontrar outras formas de expressão nas relações de trabalho, conjugais e parentais. Espero que vocês, calouros de uma vocação tão bonita, não sejam movidos pela tentação de vingança contra os calouros do ano que vem. Que o seu trote seja generoso, amigo e se traduza em algo feito em prol da comunidade. Espero que vocês sejam movidos pela reverência pela vida.

Os primeiros colocados nos exames vestibulares: Já faz anos que os cursinhos publicam as fotografias dos seus alunos que foram colocados em primeiro lugar nos exames vestibulares. Tais alunos bem que merecem pois se trata de um feito extraordinário. Mas eu gostaria mesmo é que alguém fizesse uma pesquisa sobre o destino profissional desses gênios de memória. É preciso não confundir memória com inteligência.

Inteligência emocional: Fez e ainda faz muito sucesso um livro com esse título, Inteligência Emocional. Mas o meu amigo, professor Eduardo Chaves, fez uma observação muitíssimo correta: “Não existe inteligência emocional. O que existe é emoção inteligente.” É a emoção que busca inteligência, para realizar os seus sonhos. A inteligência é ferramenta da emoção. A inteligência, em si mesma, não sente necessidade alguma da emoção.

Peixe Grande e suas histórias maravilhosas: Um filme delicioso! Leveza, humor, fantasia, realidade. Somos as histórias que contamos para nós mesmos...

“Um mandarim estava apaixonado por uma cortesã. ‘Serei sua’, disse ela, ‘quando tiver passado cem noites a me esperar sentado num banquinho, no meu jardim, embaixo da minha janela.’ Mas, na nongésima nona noite o mandarim se levantou, pôs o banquinho embaixo do braço e se foi” ( Barthes, Fragmentos do discurso amoroso, p. 96).

Disponível na Casa de Rubem Alves

2 comentários:

Marcia disse...

Olá, Dra. Mônica!!! Nessa foto vc está ao lado do próprio Rubem Alves?? Que demaaais... Tb sou admiradora desse grande homem!
Abraços, e força no HGB!
Marcia (Serviço Social Pediatria)

Mônica Firmida disse...

Pois é, Márcia. Sou eu e meu marido, em um fim-de-semana que passamos na casa de campo dele.
Um amigo e ex-professor do meu marido é muito amigo dele e nos apresentou.
Nós admiramos muito o trabalho do Rubem e colecionamos seus livros, audio-livros e etc.
Ele é uma pessoa maravilhosa!